
Sentia-se cansada. Sentia as pernas doerem profunda e agudamente, dor provocada pelo sapato novo que ganhara da irmã. A dor atacava os músculos desencorajando o ato de caminhar, mas isso não seria empecilho. Queria sair dali, diria que precisava sair dali, mas isso era difícil de explicar.
Ela sentia medo. Era comum que, inexplicavelmente, sentisse esse pânico quando se percebia sozinha. Nunca conseguiu entender esse medo, na verdade não sabia explicar direito de que tanto temia. Já dormira durante à tarde e a certeza de que não dormiria à noite apenas fazia com que o medo devorasse mais apetitosamente os órgãos internos de seu corpo. Não tinha como explicar aquele seu medo. Sentia vontade de mentir, de sustentar uma idéia de que era sensitiva, de que era capaz de prever algo ruim que estava por acontecer, de que ideal era estar acompanhada, pois estaria a presumir o pior. Contudo ela sabia que nada aconteceria e a desagradável idéia de que poderiam deduzir que ela não era confiável pioraria seus dias.
Desejava que algo ruim acontecesse, neste momento pensava que seria bom que algum assalto, algum bandido talvez pudesse invadir sua casa, então ela sairia correndo ao encontro de seu amor que a acolheria amavelmente protegendo aquela frágil mulher atacada, dessa forma seu medo teria respaldo, sua agonia teria tido a merecida atenção. Contudo nada explicável aconteceu apenas (assim diria todos que não entendem o que ela sentia) apenas o horror daquela casa vazia, ocupada por aquela criatura coitada. Coitada menos pelos fatos, era coitada por si, por aquilo que não conseguia atingir, por aquilo que não conseguia ser.
Talvez os ratos fossem um álibi satisfatório, sempre tivera pavor de ratos. Ah sim, seria essa uma boa justificativa para receber companhia por aquela noite. Uma vez ligara chorando desesperadamente para uma amiga por ter sentido um rato passar por suas mãos enquanto tentava pegar um livro que estava no chão, todos ficaram sabendo deste episódio engraçado e ninguém duvidaria que ela saísse de casa por estar com medo dos ratos. Mas depois de tantos martírios decidiu apenas chorar e implorar afeto esperando que fosse, por aquela noite, acolhida.