a palavra conversa
me ignora
e vai embora
protesto calado
com meu lápis de
ponta quebrada
terça-feira, setembro 11, 2007
segunda-feira, setembro 03, 2007
Racismo
Cada vez que aquele homem aproximava-se dela, ela sentia um asco insuportável. Temia que alguma gota do suor dele pingasse em cima de sua pele limpa e perfumada. Ele insistia, chegava cada vez mais perto da moça. Parecia-lhe inevitável conter seus músculos faciais fechando seu universo receptível. Ela estava profundamente incomodada, queria reagir, magoara-se consigo por não ter feito nada para evitar que a situação acontecesse.
O homem que palestrava estava elegantemente vestido, isso parecia para ela absurdo!
Quando um dos demais espectadores questionava o homem ela sentia um ligeiro regozijo, e quando ela percebia que ele encontrava-se sem argumento ela sentia uma íntima vingança estabelecendo-se dentro de si. Era uma vingança muito mais que saborosa, era extremamente necessária, isso porque se sentia afrontada. Sim, uma vingança deveria ser efetuada, contudo tinha que ser efetuada por outros, não por ela porque ela não podia inflingir-lhe diretamente o castigo que julgava necessário. Sua contraposição a ele deveria permanecer em segredo, ela não poderia declarar, era demasiado perigoso. Entretanto outros o faziam por ela, ele não deixaria de receber a vingança que ela desejava.
E ele continuava a se aproximar da cadeira dela, e ela já não conseguia suportar aquela voz tão próxima, corria perigo da saliva dele cair em sua branca face. Mas ele permanecia a se aproximar dela de acordo com o decorrer de sua palestra. A tragédia aconteceu quando ele ousou dirigir seu olhar para os olhos dela, o fez balançando a cabeça esperando um sinal de afirmação, de concordância com o que acabara de falar, ele não sabia, mas ela não prestava atenção no que ouvia, o olhava com o único intuito de dirigir-lhe juras de morte. E ele falava, falava, falava.
Quando ele firmou seus olhos nos olhos dela ela sentiu o ápice de seu ódio, sentia como se não coubesse mais nada dentro de si, queria gritar "pare de olhar para mim", sua face enrubesceu. Mas ele acreditou ser aquilo um sinal de timidez e insistiu, fez uma piada, queria desinibir a moça que o assistia palestrar. Ela não estava agüentando, queria ir ao banheiro para fugir desta insuportável tragédia, mas não podia, sua professora não aceitaria a ausência dela daquela palestra. Tentou superar friccionando um pé contra o outro para infligir dor em si mesma e não gritar com o homem. Implorou em pensamento que alguém interrompesse a fala de seu inimigo, precisava de algum aliado em sua batalha, e implorava para que algum dos outros ouvintes presentes na palestra interrompesse com um questionamento ele para que o homem deixasse de olhar na direção da moça branca. Contudo ninguém se manifestou e ele a venceu com seu olhar e sua proximidade. Quando o homem se afastou novamente ela suspirou, a batalha havia acabado.
A vitória dele desmoralizava a moça, isso não podia ser admitido por ela. Precisava reagir, precisava se vingar pessoalmente, precisava manter sua integridade, impor sua posição, jurava nunca mais ser platéia de um homem negro.
Na saída do auditório o palestrante dispunha-se a cumprimentar seus espectadores, então viu a moça branca de olhos claros e andou em sua direção, estendeu-lhe o braço para um cumprimento de mãos. Com muita leveza ela lhe deu a mão e retirou rapidamente dizendo com um tom sorridente, sem hostilidade, como se falasse com um amigo intimo: "como você transpira! Isso é típico de vocês, não? Digo isso por ser branca, eu não transpiro tanto, talvez seja isso que lhes fazem ter um cheiro tão, tão, como dizer... característico!". E limpando a mão no casaco afastou-se sorridente, satisfeita, havia se vingado.
E em pensamento fez uma prece "que isso não se repita", e caminhou leve para sua casa.
O homem que palestrava estava elegantemente vestido, isso parecia para ela absurdo!
Quando um dos demais espectadores questionava o homem ela sentia um ligeiro regozijo, e quando ela percebia que ele encontrava-se sem argumento ela sentia uma íntima vingança estabelecendo-se dentro de si. Era uma vingança muito mais que saborosa, era extremamente necessária, isso porque se sentia afrontada. Sim, uma vingança deveria ser efetuada, contudo tinha que ser efetuada por outros, não por ela porque ela não podia inflingir-lhe diretamente o castigo que julgava necessário. Sua contraposição a ele deveria permanecer em segredo, ela não poderia declarar, era demasiado perigoso. Entretanto outros o faziam por ela, ele não deixaria de receber a vingança que ela desejava.
E ele continuava a se aproximar da cadeira dela, e ela já não conseguia suportar aquela voz tão próxima, corria perigo da saliva dele cair em sua branca face. Mas ele permanecia a se aproximar dela de acordo com o decorrer de sua palestra. A tragédia aconteceu quando ele ousou dirigir seu olhar para os olhos dela, o fez balançando a cabeça esperando um sinal de afirmação, de concordância com o que acabara de falar, ele não sabia, mas ela não prestava atenção no que ouvia, o olhava com o único intuito de dirigir-lhe juras de morte. E ele falava, falava, falava.
Quando ele firmou seus olhos nos olhos dela ela sentiu o ápice de seu ódio, sentia como se não coubesse mais nada dentro de si, queria gritar "pare de olhar para mim", sua face enrubesceu. Mas ele acreditou ser aquilo um sinal de timidez e insistiu, fez uma piada, queria desinibir a moça que o assistia palestrar. Ela não estava agüentando, queria ir ao banheiro para fugir desta insuportável tragédia, mas não podia, sua professora não aceitaria a ausência dela daquela palestra. Tentou superar friccionando um pé contra o outro para infligir dor em si mesma e não gritar com o homem. Implorou em pensamento que alguém interrompesse a fala de seu inimigo, precisava de algum aliado em sua batalha, e implorava para que algum dos outros ouvintes presentes na palestra interrompesse com um questionamento ele para que o homem deixasse de olhar na direção da moça branca. Contudo ninguém se manifestou e ele a venceu com seu olhar e sua proximidade. Quando o homem se afastou novamente ela suspirou, a batalha havia acabado.
A vitória dele desmoralizava a moça, isso não podia ser admitido por ela. Precisava reagir, precisava se vingar pessoalmente, precisava manter sua integridade, impor sua posição, jurava nunca mais ser platéia de um homem negro.
Na saída do auditório o palestrante dispunha-se a cumprimentar seus espectadores, então viu a moça branca de olhos claros e andou em sua direção, estendeu-lhe o braço para um cumprimento de mãos. Com muita leveza ela lhe deu a mão e retirou rapidamente dizendo com um tom sorridente, sem hostilidade, como se falasse com um amigo intimo: "como você transpira! Isso é típico de vocês, não? Digo isso por ser branca, eu não transpiro tanto, talvez seja isso que lhes fazem ter um cheiro tão, tão, como dizer... característico!". E limpando a mão no casaco afastou-se sorridente, satisfeita, havia se vingado.
E em pensamento fez uma prece "que isso não se repita", e caminhou leve para sua casa.
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