quinta-feira, dezembro 06, 2007

Euforia

Andei pelas ruas com pressa e medo que a chuva começasse a desabar enquanto eu não chegava em casa. Só pensei nos passos que faltavam e nas gotas que começavam a cair. E quando finalmente cheguei na escada ouvi o temporal, eu estava seca, salva da chuva.
Subi as escadas com certa euforia, pensei nele, sabia que o encontraria no quarto, mas quando entrei pela porta o vi na cozinha a lavar pratos. Ele estava sem camisa. Seus movimentos faziam perceber os músculos dos ombros. Como ele é belo! Eu o admiro profundamente.
Sem dizer palavras caminhei em sua direção, ansiosa para tocá-lo. Quando o alcancei beijei compulsivamente seu braço – ele permaneceu na mesma posição, pois tinha as mãos ocupadas com a esponja e o sabão – minhas mãos buscavam seu corpo freneticamente e minha única vontade era despi-lo das poucas roupas que ele usava. Em um desejo incontível virei seu corpo de frente para mim e insisti em seu abraço. Ele me abraçou e entendeu que meu desejo era tê-lo entregue. Ele se entregou. Instantaneamente seus lábios tornaram-se sensíveis à minha língua e seu sexo endureceu. Eu o peguei enquanto ele me despia, abaixei em sua frente e engoli saboreando seu enorme pênis preto. Lambi e beijei. Ele me puxou para cima e me apoiando na parede me penetrou, foi neste instante que senti sua virilidade latejando, nestas horas seus ombros tornaram-se mais belos ainda. Depois disso, trepamos de costas, de frente, de quatro, enfim, com muito prazer.
No fim, de joelhos no chão nos beijamos e nos abraçamos com a ternura dos que se possuem.

sábado, novembro 03, 2007

sob o céu que vai se pôr
a manhã
desaparece

ver-des
tudo escurece

água escorre
em lamento

da terra pondo
lentamente

seu pôr
que não se repõem

terça-feira, outubro 23, 2007

A Estória de Diana (Uma fada ou uma estrela negra)

Ela nasceu quando os fragmentos de uma supernova caíram sobre a neve num canto esquecido do planeta e lá permaneceram durante anos, até a primavera finalmente chegar e com ela os odores da natureza e a musica do cosmos, ela já surgiu com a aparência que nós conhecemos e que encantaria a todos, ela aprendeu a dança que é executada há anos pelos planetas do sistema solar, sua cor é a cor da terra fresca pronta para ser fertilizada, ela aprendeu a caminhar pelo sonhar, e com isso se insinuava dentro dos sonhos dos amantes, e todo ser que faz amor, faz amor com ela, ela é o próprio sexo, e ela é inspiração para todos os que tocam a sublime fronteira do delírio e que nós chamamos de arte, todo pintor, quando desenha, está pintando seus traços, e todo poeta quando escreve, é seu corpo e sua mente que está exaltando, mesmo que não saiba disso, porque desde que nasceu ela sussurra nos ouvidos dos solitários que não sabem o que é amar, e cede seu corpo para eles em seus sonhos quando dormem, ela está ao lado dos casais que choram, mas ela não entende apenas do amor, ela já passeou por pesadelos sinistros, ela conhece a dor e a violência, e ela os aceita como parte essencial de uma vida larga e excitante, ela cede aos impulsos violentos e se sensibiliza (sem se entristecer) com o sangue que corre, e no momento em que você tem a arma em suas mãos apontada para sua cabeça e sua vontade hesita, ela despede-se de ti com um beijo e puxa o gatilho, ela ouve os apelos dos desesperados e dos que perdem a fé, ela esteve junto com terroristas suicidas no momento da ação e se, no meio da guerra, você chamar por ela, ela lutará a seu lado, se sua causa for sincera, ela vem da terra dos desejos, onde a vida merece ser vivida em toda sua intensidade, foi o Instinto Soberano quem lhe disse isso e ela respeita esse seu velho amigo, como todas as fadas, ela também visita o inferno freqüentemente, e constrói seus castelos de prazer a partir dos pedaços de lixo que sobram para os sonhadores e ela sente-se feliz por isso, por poder compartilhar a dança dos dias com esses sonhadores e dar-lhes um motivo para seguir seus destinos trágicos e brilhantes, Diana encontrou Lázaro após sua temporada no inferno e dedicou-se a tentar entender as lágrimas desta criança, tanto conheceu o motivo de suas dores e a origem de seu prazer que caiu de paixão por ele, e mais uma vez esteve ele às voltas com o amor; Mas fadas são sonhos, e, como eles, existem para morrer quando abrem-se os olhos.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Despedida

Olhou para o homem deitado ao seu lado e uma lágrima desceu-lhe pela face tão instantaneamente que a moça surpreendeu-se. Então, dispôs-se a acariciar aquela face que o sono levava para um lugar muito distante. Sussurrou no ouvido do homem algumas palavras, “vou te abandonar”, ele moveu-se como quem quer se aconchegar e ela permaneceu parada, olhando para a imagem que se lembrava ser a que mais amou. Não entendia direito o que estava fazendo. No chão, ao lado da cama, a pequena mala contendo apenas suas coisas mais essenciais a esperava se despedir. Sentindo que dentro de si alguma coisa transbordava ininterruptamente, ela beijou aqueles lábios imóveis. Seus olhos deixavam escorrer gotas imensas de lágrimas, uma de cada vez. Suas pálpebras enchiam-se e quando o peso da gota já não era contível, os cílios em um movimento brusco empurravam para fora de uma só vez. O homem desacordado pousou a mão em sua perna e ela estremeceu. Sentiu que seu corpo deseja incansavelmente aquela mão. Mas nada adiantava, fora ali para se despedir, não o acordaria, não poderia fazê-lo com ele acordado, ela jamais seria capaz de dizer-lhe adeus enquanto ele a ouvisse atento. Olhou para sua mala que parecia impaciente a esperá-la em sua despedida, depois olhou novamente para o homem, e beijando-lhe no rosto fez uma promessa bem perto de seu ouvido: “nunca mais sentirei ciúmes”. A moça estava profundamente triste porque estava se despedindo. Mentalmente ela se submetia a sensação de saber que aquela era a última vez que via a seu lado o seu grande amor, dormindo calmo e tranqüilo enquanto ela guerreava dentro de si porque ela o amava e ele não entendia o que significava esse amor. Então se levantou e saiu pela porta, trancou e jogou a chave pela janela. Tomou um ônibus e nunca mais viu seu homem.

terça-feira, setembro 11, 2007

a palavra conversa
me ignora
e vai embora

protesto calado
com meu lápis de
ponta quebrada

segunda-feira, setembro 03, 2007

Racismo

Cada vez que aquele homem aproximava-se dela, ela sentia um asco insuportável. Temia que alguma gota do suor dele pingasse em cima de sua pele limpa e perfumada. Ele insistia, chegava cada vez mais perto da moça. Parecia-lhe inevitável conter seus músculos faciais fechando seu universo receptível. Ela estava profundamente incomodada, queria reagir, magoara-se consigo por não ter feito nada para evitar que a situação acontecesse.
O homem que palestrava estava elegantemente vestido, isso parecia para ela absurdo!
Quando um dos demais espectadores questionava o homem ela sentia um ligeiro regozijo, e quando ela percebia que ele encontrava-se sem argumento ela sentia uma íntima vingança estabelecendo-se dentro de si. Era uma vingança muito mais que saborosa, era extremamente necessária, isso porque se sentia afrontada. Sim, uma vingança deveria ser efetuada, contudo tinha que ser efetuada por outros, não por ela porque ela não podia inflingir-lhe diretamente o castigo que julgava necessário. Sua contraposição a ele deveria permanecer em segredo, ela não poderia declarar, era demasiado perigoso. Entretanto outros o faziam por ela, ele não deixaria de receber a vingança que ela desejava.
E ele continuava a se aproximar da cadeira dela, e ela já não conseguia suportar aquela voz tão próxima, corria perigo da saliva dele cair em sua branca face. Mas ele permanecia a se aproximar dela de acordo com o decorrer de sua palestra. A tragédia aconteceu quando ele ousou dirigir seu olhar para os olhos dela, o fez balançando a cabeça esperando um sinal de afirmação, de concordância com o que acabara de falar, ele não sabia, mas ela não prestava atenção no que ouvia, o olhava com o único intuito de dirigir-lhe juras de morte. E ele falava, falava, falava.
Quando ele firmou seus olhos nos olhos dela ela sentiu o ápice de seu ódio, sentia como se não coubesse mais nada dentro de si, queria gritar "pare de olhar para mim", sua face enrubesceu. Mas ele acreditou ser aquilo um sinal de timidez e insistiu, fez uma piada, queria desinibir a moça que o assistia palestrar. Ela não estava agüentando, queria ir ao banheiro para fugir desta insuportável tragédia, mas não podia, sua professora não aceitaria a ausência dela daquela palestra. Tentou superar friccionando um pé contra o outro para infligir dor em si mesma e não gritar com o homem. Implorou em pensamento que alguém interrompesse a fala de seu inimigo, precisava de algum aliado em sua batalha, e implorava para que algum dos outros ouvintes presentes na palestra interrompesse com um questionamento ele para que o homem deixasse de olhar na direção da moça branca. Contudo ninguém se manifestou e ele a venceu com seu olhar e sua proximidade. Quando o homem se afastou novamente ela suspirou, a batalha havia acabado.
A vitória dele desmoralizava a moça, isso não podia ser admitido por ela. Precisava reagir, precisava se vingar pessoalmente, precisava manter sua integridade, impor sua posição, jurava nunca mais ser platéia de um homem negro.
Na saída do auditório o palestrante dispunha-se a cumprimentar seus espectadores, então viu a moça branca de olhos claros e andou em sua direção, estendeu-lhe o braço para um cumprimento de mãos. Com muita leveza ela lhe deu a mão e retirou rapidamente dizendo com um tom sorridente, sem hostilidade, como se falasse com um amigo intimo: "como você transpira! Isso é típico de vocês, não? Digo isso por ser branca, eu não transpiro tanto, talvez seja isso que lhes fazem ter um cheiro tão, tão, como dizer... característico!". E limpando a mão no casaco afastou-se sorridente, satisfeita, havia se vingado.
E em pensamento fez uma prece "que isso não se repita", e caminhou leve para sua casa.

sexta-feira, agosto 24, 2007

Profecia

Um dia todas as máscaras hão de cair
E falsos deuses serão descobertos.
Ressentimentos se tornarão espadas
Afiadas espadas de diamante que servirão
Para banhar de sangue relacionamentos impuros.

E eu, que procurava alento
Nas águas turvas de um rio avesso,
Me afogarei feliz carregando na mão direita
A poesia com que me presenteates.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Conto em construção.

quarta-feira, agosto 08, 2007

Morte Escrita

Morri ontem
com a glória
que esperava
sentada e sonolenta

O instante que me atravessa
agora
como um estilete
me deixou inteiro pelo lado de fora

Congelado bom senso que
pariu as dores de minha vida
minha morte
gritos
rebuliços das prosas
dos cadernos brancos

As mortes temem túmulos fechados
e lágrimas verdadeiras
morro por enterrar tanta vida
que morre em mim

segunda-feira, julho 30, 2007

O último elemento da caixa de pandora

Tem alguma coisa que, silenciosamente, continua sobrevivendo. Ela está lá. Enquanto trabalham, comem, dormem, ninguém repara nela. Contudo alguma coisa, ainda que ninguém perceba, permanece enquanto os demais vivem. Ela cresce com tudo que é vivo. Não precisa de mais de um minúsculo grão de sua fertilizante essência para brotar. Talvez a derrota mais sangrenta te faça sentir o tom fugaz que ela possui. Mas não acredito que alguém um dia possa tocá-la, ela é distante, não quer ser vista. É tímida, medrosa, mas garanto que é realmente uma flor. Ela é um pouco triste, mas também faz sorrir. E ninguém sabe do que possui, talvez nem possua nada. Não se sabe sobre seu valor, não se sabe qual sua utilidade, nada se sabe sobre ela, apenas uma pequena sensação de sua existência, mas mesmo disso se tem dúvidas.

É quase um alívio o que sua serenidade traz, quase um conforto. Como se essa sensação de sua existência oferecesse para quem sente um consolo, como se a vida se justificasse na idéia da existência dela, por isso se faz tanta força para percebê-la, mas em muitas vezes chego a ter certeza que ela não passa de uma ilusão, às vezes consigo viver com isso, às vezes me drogo com ideologias estúpidas. Contudo, de tempos em tempo posso senti-la nitidamente, como se eu estivesse de olhos fechados sendo beijada sem pedir. Às vezes posso afirmar que foi ela quem me procurou e não eu que a procurei. Andando na rua em meio à multidão, de olhos distraídos, sem prestar atenção em nada, posso sentir seu perfume se sobrepondo àqueles fragmentos de metal no ar, é como a flor que brota no asfalto do chão da capital, contudo não é cor nem forma que se percebe, é um perfume fugaz que aparece e sem despedida se esvai.

Nos dias frios penso muito nela, às vezes tento chamá-la, nada adianta, então tento dormir, pois sei que o sono é a única coisa que se assemelha a sua natureza onírica.

sexta-feira, julho 20, 2007

Se todos estes cães ferozes
São todos meus amigos
Se as lagartixas na parede,
Alimentam-se dos mosquitos que carregam meu sangue,
Se mesmo os gatos,
Em sua independência de felinos dissimulados
Buscam meu colo,
Porque insisto em me manter ao lado
Dos atrozes seres humanos,
Que violam meu peito e me cansam a alma?
É que pra mim, a poesia não nasce de dias de sol.

terça-feira, julho 10, 2007

Craintif

Pássaros inconscientes

Sobrevoam bêbados

Pela

Minha cabeça e dizem:

Está tudo bem.

E eu sei que não está.

Traumas amassados

Inacabados e

Insólitos

Lambem-me a meia noite

E dizem:

Está na hora de saltar!

E eu sei que ainda não.

Encolho-me à casca

Recolho as asas

E ele passa.

Borboletas cheias de

Cicatrizes

Oferecem – me drinks,

Cegam- me a realidade

E dizem:

Nós te amamos!

E eu sei que ninguém ama

Atormentados

Nem bêbados

Nem santos

Nem diabos

Pois os olhos largos percebem

A voz sumida,

De uma boca regular, paralisada.

Ensaio

Trajetos

Gestos

Falas

E então digo: sim, essa é a hora!

Mas o salão está vazio.

domingo, julho 01, 2007

lambuze a mente, a vida é para ser comida

os objetos se entregam
permanecem inteiros
as paredes encobrem
cheiro da própria pele
os castelos alheios se embelezam
o tempo contempla seu mistério
os objetos se enlaçam
com seus vazios
essa casa, esse mundo
tudo passa
mas gruda na mente
de um corpo
que vive pouco
os objetos se instalam em lugares
que a gente se esquece
por não lembrar como eram
o vazio de antes deles
paredes brancas ou bege
ou outros nomes
a mesma cor
tudo o tempo esquece
ou se cansa de lembrar
os objetos vêem
os observa, se olham
sentenciam
rigidez moral
fixo por natureza
andando ou parado
essa vida já lhe é cara
vender os objetos
derrubar as paredes
furar esses buracos
e entender as sobras
os objetos impõem desejos
percebe estar com sono
os objetos lhe acariciam
riem dos seus delírios
sabem a hora de acordar
no dia seguinte
tomam um copo de leite morno e
vão deitar tranquilos

sexta-feira, junho 22, 2007

Carta ao pequeno diabo

Vamos meu amor, queime logo estes papéis. Vai querido destrua, destrua. Por que esta fidelidade, se o fogo é o único amigo do diabo? Não há o que temer, você está sozinho mesmo. Então queime estes papéis e mostre que essas antigas palavras não te influenciam mais, então deixe que este calor, apenas este calor, aqueça sua alma. Digo isso para ti, pois sei que você sente frio, eu sei que a leve manta que te ofereceram não te aquece mais, porque você sentiu algo diferente. Você não é mais aquela criança e eles não te convencem mais tão facilmente. Queime tudo que te oprime, pois o fogo é o único amigo do diabo. Diga adeus para eles, eles só te querem como mais um operário de sua mesquinha obra. Você tem todo o direito, não sinta medo criança eles não vão poder te castigar depois que os papéis estiverem queimados. São mentiras que escreveram para tentar te convencer. Mas você percebeu que algo mudou em ti. Você sentiu uma pequena faísca de vida. Você conhece agora uma pequena porção de verdade da vida. É isso mesmo: emoções! Somos emoções, nada mais. E tudo acaba com o tempo. Não há razão para se prender a estes papéis, pois o fogo é o único amigo do diabo, então vai lá e viva, pois tem sangue em suas veias. Sinta: é excitação, é ódio, é amor. É vida criança, é vida. E é sua, você não precisa continuar preso, pois o fogo é o único amigo do diabo. Deite-se na cama com a bela garota de seios fartos, delicie-se neles. Sinta o calor dela. Viva este prazer. Você pode se libertar, você só precisa queimar os papéis...

Pronto meu bem, não precisa mais conter seu músculo, deixe que a vida aconteça em ti. Está livre agora. Aquelas palavras no papel que você queimou foram embora com o vento, são apenas cinzas agora.

domingo, junho 10, 2007

Batalha poética

O romantismo caminhava até mim, seus olhos cegos e cauterizados, esticando as mãos até mim, como algum morto-vivo que ameaçasse alimentar-se de meu sangue. O romantismo caminhava até mim, e possuía unhas aço para minha carne rasgar, e possuía também o sangue de tantas outras carnes que já havia lacerado! Presos às suas pernas, como grilhões, arrastavam-se bíblias e cadáveres putrefatos, heranças de crimes cometidos dos quais poucos ousam falar. O romantismo caminhou até mim, e ao me alcançar, sussurrou em meu ouvido, e sua voz se parecia com o som de um túmulo fechando, ou talvez se assemelhe mais com o som do estupro. De sua boca desprendia um hálito de cobra, uma nuvem venenosa capaz de deixar tontos Hércules e Aquiles juntos. Terrificado diante de tal acontecimento mórbido, ergui as mãos, cercando-as sobre seu pescoço e apertei forte, derrubando o infame e maldito anjo da miséria. Apertei, até que não pôde mais respirar, não pode mais soltar suas exclamações mentirosas, e mesmo oprimido por seu fedor de ratazana, segui até que não restasse vida naquele corpo, se é que existe vida em algo cuja única disposição era a de matar os sentimentos mais lindos. Levantei-me, e como para me certificar de ter livrado-me de semelhante inseto, disparei um tiro contra sua boca, espatifando sua cabeça e derramando o sangue verde desta barata ancestral. Deus ria com certa ironia de meu abuso ao pisar sobre os nossos mortos, mas também temia que eu seguisse impune, e me amaldiçoou. Minha maldição consiste em ouvir o tempo inteiro aquela voz, bem baixa, que me diz: "Estás só". E toda noite, quando me deito, devo confiar na minha audácia de, no dia seguinte, apaixonar-me sem a tirania da paixão, amar sem a injustiça do amor, chorar sem a evidência da lágrima, e como Artaud, extrair da mera existência, a vida.

sexta-feira, maio 25, 2007

Quem , eu?

Essa terça parte. esse vestígio. Esse piolho que gruda. A de óculos. A que triste não percebe seu próprio sorriso refletindo a miséria que a consome .A que fica quieta quando gritam seu nome e que abana o rabinho quando ele vira a cara.
Você perguntou quem sou eu? Sou essa impressão sem nexo ora com vontade ora sem nenhuma, de se fazer compreendida.
Não queria me esquivar diante de minha imagem e criação, do ser ficcional que crio e modifico a cada dia...
O espelho que nada reflete. O corpo não pode existir se todo o resto padeceu.
Desculpe-me se pareço indiferente ao narrar essa história sem fatos, mas é que essa sou eu sem vida.

Thalita Covre

domingo, maio 13, 2007

Dia das Mães

Agora que estava deitada esperando que alguém lhe trouxesse algo para mastigar, pensava nas crianças brincando embaixo do pé de goiaba.

Já era tarde, quase escurecendo. Um sentimento profundo surgiu no momento que lembrou que era dia das mães. A tristeza era mais por ter passado o dia inteiro sem ter a menor ideia disso. Esquecera completamente. Não que isso tivesse algum dia importância, nunca suas crianças ligavam , nem mesmo ela se importava. A não ser quando a data precisou ser festejada. Isso deve ter acontecido uns dois anos antes dos meninos se misturarem com o mundo. Não percebeu ela o verdadeiro significado daqueles presentes caros comprados com o próprio dinheiro dos rebentos. Se limitou a ficar orgulhosa de sua criação ou a admirar os badulaques. Mas devem mesmo ter sido caros, pensava ela agora se sentido idiota por sua ingenuidade.

As viagens, as pressas do dia a dia, as conversas em que levava a serio os conselhos de seres tão pequenos. Tudo é tão importante quando isso não é percebido.

Guardava até poucos anos antes no canto da sala os brinquedos antigos. As vezes sem perceber arrumava-os quase como se quisesse brigar por tamanha arrumação.

Pensou que poderia chorar com essas lembranças, mas fora interrompida pela empregada com sua sopa rala e o pão duro. O jantar combinava com suas distrações de lembrar e extrair tristeza do melhor de sua vida. Sendo essa lucidez a mas cruel que restava.

Ser mãe era o melhor que tinha feito . Nem os amores perdidos, nem a profissão brilhante que se desfez em poucas tentativas. Qualquer coisa não fariam ela estar pensando a cada colher de sopa com o pão mordido. Poderia agora chorar. Mas ninguém veria. E ela sabia como era difícil de engolir quando chorava, e não poderia desperdiçar seu apetite fraco e a pouca chance dele coincidir com os horários das refeições.

Que felicidade poder lamentar pela falta de algo. A tristeza de não ter mais era a grandeza que precisava para terminar a comida com um quase sorriso que lhe fez dormir cheia. Preenchida de sopa e vida.

segunda-feira, maio 07, 2007

O belo peixe devorado pela grandeza assassina

E foi então que senti uma vontade desesperada de chorar. Não amigo nada aconteceu, mas é exatamente nesta ausência de fatos que recosta minha tristeza. Não, meu pai não morreu, ele permanece tão vivo quanto cruel, mas não é sua crueldade que quero chorar.

Senti a dor do que não se entende. Não há com o que se preocupar, pois nada existe. Contudo choro, e não sei explicar. Foge de mim qualquer possibilidade de dizer, ou mesmo fazer perceber, apenas a lágrima que escondi poderia demonstrar alguma coisa acontecendo, mas ela já passou.

É a ausência de razão a fonte maior de minha desgraça. E se eu for tentar te escrever como senti esta bigorna caindo em minha cabeça você certamente riria, como se estivesse vendo um desenho animado que debocha da vingança.

Mas entristeci por ler o que me instiga. Apenas conheci um prazer a mais, e isso não coube dentre de mim, e a bigorna feriu minha percepção, e esqueci por segundos a razão pela qual as pessoas entristecem. E te evoquei para em seu bom senso desabar minha loucura.

Quero te pedir desculpas por isso, mas é que preciso te dizer que chorei porque fiquei feliz. Perdão por favor, por fazer isso com você, mas aconteceu.

Apenas a você vou mostrar ela, pois rezarei para que meu anjo não nos ouça sussurrar esta minha luz cinzenta de agora, pois ele teria esta minha insensatez como sufrágio a seu amor por mim. Que ele não venha, pois se isto acontecer eu jamais conseguirei te falar desta dor que toma meus momentos eufóricos. Ele não veio, louvemos amigo, ele não veio, e agora vou tentar te falar do que senti.

Não sei como, mas meu peito latejou, e meus olhos pesaram na imagem do belo peixe que desliza suavemente no oceano pacífico no instante de seu sepultamento na barriga de um tubarão. O belo devorado. Foi quando na agilidade de um movimento de cauda nas águas que toda leveza foi levada embora e restou uma linha vermelha que rapidamente se dissipa no mar, o rastro vermelho que acompanha aquele peso que carrego em meu âmago.

Sabe o que mais me angustia? É sentir esta tristeza, é saber que inevitavelmente o belo peixe foi devorado, e que isso vai acontecer quantas vezes um peixe resolver deslizar pelas calmas águas de minha alma, aquele peso virá não sei de onde e devorará o que poderia estar me fazendo feliz. Ah, esta felicidade que em poucos segundos eu consigo desfrutar.

Asseguro-te amigo, somente assim, na imagem do belo peixe degustado pela grandeza assassina que posso tentar te falar da minha lágrima no banheiro. E só faço isso porque sei que você não saberia simplesmente me deixar chorar sem tentar me ajudar a encontrar uma razão obvia, uma solução para minha dor.

Olha amigo, não precisa me ajudar a buscar uma solução, eu nem sei se ela existe. Preciso te confessar, eu não quero soluções. Eu sou isso, um mar onde coisas inesperadas acontecem, e não tenho a menor “força de vontade” (expressão que acho patética por não possuir) para me mudar.

sábado, abril 28, 2007

O Estrangeiro

Às vezes me invade como o exército alemão marchando sobre Paris quando estou triste;
Às vezes é pura escuridão, em seu silêncio sagrado.
Às vezes é como fazer sexo num dia de chuva;

Às vezes são dez mil olhos me observando de todas as paredes;
Às vezes é só a TV;
Às vezes é cuspir ódio pela ascensão de um novo ditador no Congo;

Às vezes é desconfiança;
Às vezes é celebração;
E às vezes é dor;

Às vezes me procura como um braço decepado atrás do resto do corpo;
Às vezes me abandona como uma ex-dona de casa livre para a vida;
Às vezes me atrai como a inocência que atrai o pedófilo;

Às vezes são crisântemos amarelos;
Às vezes é uma orquídea;
Às vezes uma violeta que resplandece no outono;

Às vezes a fúria do rock’roll;
Às vezes a solidão de um blues;
Às vezes, o surrealismo de Lynch;

Às vezes eu quero esquecer;
Às vezes estou envolvido demais;
Às vezes são ruas escuras por onde me perco quando procuro por tua mão;

Toda noite a noite me diz que “isso” é apenas uma volta ao lar,
E eu carrego bombas com as quais destruirei monumentos,
Pois o lar para onde o “isso” da vida me leva
Leva muito tempo para alcançar.
Às vezes ele se parece com uma canção anarquista espanhola,
Outras vezes ele me vem como teu sorriso.
Às vezes é viver dentro de tudo e ter tudo existindo entro de mim.

quarta-feira, abril 18, 2007

Foi muito difícil ver
partir
o pequeno calor que
eu tinha.
O vermelho de todo o
meu corpo
virando amarelado de folhas
envelhecidas...
De repente, não mais que,
eu me vejo
esquecida na prateleira da
alucinação.
E tudo o que antes eu
Rezava
Agora vira praga.
Uma grande
Falta de vontade de ser
Vista e lida
As traças viraram
companheiras
Sentem prazer em me ver
Cumprimentam, sorriem e
comigo transam.
Triste, espero as mãos brancas,
Com punhos bonitos,
Tocarem novamente em
minha capa roída.
Quem sabe dessa vez
ele não
Esquece as novidades e
Me leva consigo?
Thalita Covre

segunda-feira, abril 09, 2007

Ensaio
Estréio
No ato
Que falho

domingo, fevereiro 04, 2007

Angústia


Sentia-se cansada. Sentia as pernas doerem profunda e agudamente, dor provocada pelo sapato novo que ganhara da irmã. A dor atacava os músculos desencorajando o ato de caminhar, mas isso não seria empecilho. Queria sair dali, diria que precisava sair dali, mas isso era difícil de explicar.
Ela sentia medo. Era comum que, inexplicavelmente, sentisse esse pânico quando se percebia sozinha. Nunca conseguiu entender esse medo, na verdade não sabia explicar direito de que tanto temia. Já dormira durante à tarde e a certeza de que não dormiria à noite apenas fazia com que o medo devorasse mais apetitosamente os órgãos internos de seu corpo. Não tinha como explicar aquele seu medo. Sentia vontade de mentir, de sustentar uma idéia de que era sensitiva, de que era capaz de prever algo ruim que estava por acontecer, de que ideal era estar acompanhada, pois estaria a presumir o pior. Contudo ela sabia que nada aconteceria e a desagradável idéia de que poderiam deduzir que ela não era confiável pioraria seus dias.
Desejava que algo ruim acontecesse, neste momento pensava que seria bom que algum assalto, algum bandido talvez pudesse invadir sua casa, então ela sairia correndo ao encontro de seu amor que a acolheria amavelmente protegendo aquela frágil mulher atacada, dessa forma seu medo teria respaldo, sua agonia teria tido a merecida atenção. Contudo nada explicável aconteceu apenas (assim diria todos que não entendem o que ela sentia) apenas o horror daquela casa vazia, ocupada por aquela criatura coitada. Coitada menos pelos fatos, era coitada por si, por aquilo que não conseguia atingir, por aquilo que não conseguia ser.
Talvez os ratos fossem um álibi satisfatório, sempre tivera pavor de ratos. Ah sim, seria essa uma boa justificativa para receber companhia por aquela noite. Uma vez ligara chorando desesperadamente para uma amiga por ter sentido um rato passar por suas mãos enquanto tentava pegar um livro que estava no chão, todos ficaram sabendo deste episódio engraçado e ninguém duvidaria que ela saísse de casa por estar com medo dos ratos. Mas depois de tantos martírios decidiu apenas chorar e implorar afeto esperando que fosse, por aquela noite, acolhida.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Menina

A menina que anda bêbada, tropeça;

A menina que anda bêbada, tropeça;

Ela distribui presentes

Ela trepa na calçada e ouve vozes

De cores cintilantes que se acendem e se apagam,

Suas mensagens são Menages

E ela nunca ficará sozinha.


No lado mais sujo do quarto, ela terá uma garrafa de vinho

E um amante imaginário.

E se o desejo torna-se grande,

Ela trepa na calçada.

Ela ouve vozes.

E ela dança jazz como ninguém,

E chora e canta,

E ninguém cheira como ela;

Quando está sozinha sobre mim


Uma tarde, em que o sol nos fazia infelizes

Ela me encontrou

Em trajes operários

E me olhou como se eu a houvesse machucado.

Seu guarda-chuva aberto mostrava

Manchas de prazer e vontade.

Mas ela guarda seus segredos para a noite,

Guarda leveza, guarda chuvas espumantes em seu quarto.


E talvez com tantos cortes e arranhões

Espalhados pelo corpo, alguns duvidem

Da delicadeza desses movimentos noturnos.

Eu faria o mesmo se a mim agradassem os dias de sol,

Que não brilha tanto quanto o grito,

Voraz e melodioso,

Da garota que deita ao meu lado

E diz que à luz do sol, tudo é sombra,

E quando ela chora,

São lágrimas doces.

Ela possui o encanto das noites frias.


À noite é a hora da traição,

Deixo Selene de lado e durmo com ela,

A menina que anda bêbada e

Que trepou comigo na calçada, na saída do trabalho.

“Amanhã é um dia tão monótono,

Vamos nos deixar morrer hoje”.

E eu lhe digo que somos como flores

E que morreremos porque ninguém cuidará de nós

Quando deixarmos aquele quarto.

E assim eu me apaixono

Pela garota que anda bêbada, que tropeça,

Canta, dança e cheira,

Que trepou comigo na calçada e que

Não quer mais saber de mim.

O melhor que ela teve da vida,

Ela não guardou pra ela,

Tão bela que é, me quer sentindo o mesmo.


O melhor vinho ainda é aquele que não bebi,

E a melhor musica, foi a primeira que escutei.