sexta-feira, junho 22, 2007

Carta ao pequeno diabo

Vamos meu amor, queime logo estes papéis. Vai querido destrua, destrua. Por que esta fidelidade, se o fogo é o único amigo do diabo? Não há o que temer, você está sozinho mesmo. Então queime estes papéis e mostre que essas antigas palavras não te influenciam mais, então deixe que este calor, apenas este calor, aqueça sua alma. Digo isso para ti, pois sei que você sente frio, eu sei que a leve manta que te ofereceram não te aquece mais, porque você sentiu algo diferente. Você não é mais aquela criança e eles não te convencem mais tão facilmente. Queime tudo que te oprime, pois o fogo é o único amigo do diabo. Diga adeus para eles, eles só te querem como mais um operário de sua mesquinha obra. Você tem todo o direito, não sinta medo criança eles não vão poder te castigar depois que os papéis estiverem queimados. São mentiras que escreveram para tentar te convencer. Mas você percebeu que algo mudou em ti. Você sentiu uma pequena faísca de vida. Você conhece agora uma pequena porção de verdade da vida. É isso mesmo: emoções! Somos emoções, nada mais. E tudo acaba com o tempo. Não há razão para se prender a estes papéis, pois o fogo é o único amigo do diabo, então vai lá e viva, pois tem sangue em suas veias. Sinta: é excitação, é ódio, é amor. É vida criança, é vida. E é sua, você não precisa continuar preso, pois o fogo é o único amigo do diabo. Deite-se na cama com a bela garota de seios fartos, delicie-se neles. Sinta o calor dela. Viva este prazer. Você pode se libertar, você só precisa queimar os papéis...

Pronto meu bem, não precisa mais conter seu músculo, deixe que a vida aconteça em ti. Está livre agora. Aquelas palavras no papel que você queimou foram embora com o vento, são apenas cinzas agora.

domingo, junho 10, 2007

Batalha poética

O romantismo caminhava até mim, seus olhos cegos e cauterizados, esticando as mãos até mim, como algum morto-vivo que ameaçasse alimentar-se de meu sangue. O romantismo caminhava até mim, e possuía unhas aço para minha carne rasgar, e possuía também o sangue de tantas outras carnes que já havia lacerado! Presos às suas pernas, como grilhões, arrastavam-se bíblias e cadáveres putrefatos, heranças de crimes cometidos dos quais poucos ousam falar. O romantismo caminhou até mim, e ao me alcançar, sussurrou em meu ouvido, e sua voz se parecia com o som de um túmulo fechando, ou talvez se assemelhe mais com o som do estupro. De sua boca desprendia um hálito de cobra, uma nuvem venenosa capaz de deixar tontos Hércules e Aquiles juntos. Terrificado diante de tal acontecimento mórbido, ergui as mãos, cercando-as sobre seu pescoço e apertei forte, derrubando o infame e maldito anjo da miséria. Apertei, até que não pôde mais respirar, não pode mais soltar suas exclamações mentirosas, e mesmo oprimido por seu fedor de ratazana, segui até que não restasse vida naquele corpo, se é que existe vida em algo cuja única disposição era a de matar os sentimentos mais lindos. Levantei-me, e como para me certificar de ter livrado-me de semelhante inseto, disparei um tiro contra sua boca, espatifando sua cabeça e derramando o sangue verde desta barata ancestral. Deus ria com certa ironia de meu abuso ao pisar sobre os nossos mortos, mas também temia que eu seguisse impune, e me amaldiçoou. Minha maldição consiste em ouvir o tempo inteiro aquela voz, bem baixa, que me diz: "Estás só". E toda noite, quando me deito, devo confiar na minha audácia de, no dia seguinte, apaixonar-me sem a tirania da paixão, amar sem a injustiça do amor, chorar sem a evidência da lágrima, e como Artaud, extrair da mera existência, a vida.