O romantismo caminhava até mim, seus olhos cegos e cauterizados, esticando as mãos até mim, como algum morto-vivo que ameaçasse alimentar-se de meu sangue. O romantismo caminhava até mim, e possuía unhas aço para minha carne rasgar, e possuía também o sangue de tantas outras carnes que já havia lacerado! Presos às suas pernas, como grilhões, arrastavam-se bíblias e cadáveres putrefatos, heranças de crimes cometidos dos quais poucos ousam falar. O romantismo caminhou até mim, e ao me alcançar, sussurrou em meu ouvido, e sua voz se parecia com o som de um túmulo fechando, ou talvez se assemelhe mais com o som do estupro. De sua boca desprendia um hálito de cobra, uma nuvem venenosa capaz de deixar tontos Hércules e Aquiles juntos. Terrificado diante de tal acontecimento mórbido, ergui as mãos, cercando-as sobre seu pescoço e apertei forte, derrubando o infame e maldito anjo da miséria. Apertei, até que não pôde mais respirar, não pode mais soltar suas exclamações mentirosas, e mesmo oprimido por seu fedor de ratazana, segui até que não restasse vida naquele corpo, se é que existe vida em algo cuja única disposição era a de matar os sentimentos mais lindos. Levantei-me, e como para me certificar de ter livrado-me de semelhante inseto, disparei um tiro contra sua boca, espatifando sua cabeça e derramando o sangue verde desta barata ancestral. Deus ria com certa ironia de meu abuso ao pisar sobre os nossos mortos, mas também temia que eu seguisse impune, e me amaldiçoou. Minha maldição consiste em ouvir o tempo inteiro aquela voz, bem baixa, que me diz: "Estás só". E toda noite, quando me deito, devo confiar na minha audácia de, no dia seguinte, apaixonar-me sem a tirania da paixão, amar sem a injustiça do amor, chorar sem a evidência da lágrima, e como Artaud, extrair da mera existência, a vida.
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