segunda-feira, outubro 08, 2007

Despedida

Olhou para o homem deitado ao seu lado e uma lágrima desceu-lhe pela face tão instantaneamente que a moça surpreendeu-se. Então, dispôs-se a acariciar aquela face que o sono levava para um lugar muito distante. Sussurrou no ouvido do homem algumas palavras, “vou te abandonar”, ele moveu-se como quem quer se aconchegar e ela permaneceu parada, olhando para a imagem que se lembrava ser a que mais amou. Não entendia direito o que estava fazendo. No chão, ao lado da cama, a pequena mala contendo apenas suas coisas mais essenciais a esperava se despedir. Sentindo que dentro de si alguma coisa transbordava ininterruptamente, ela beijou aqueles lábios imóveis. Seus olhos deixavam escorrer gotas imensas de lágrimas, uma de cada vez. Suas pálpebras enchiam-se e quando o peso da gota já não era contível, os cílios em um movimento brusco empurravam para fora de uma só vez. O homem desacordado pousou a mão em sua perna e ela estremeceu. Sentiu que seu corpo deseja incansavelmente aquela mão. Mas nada adiantava, fora ali para se despedir, não o acordaria, não poderia fazê-lo com ele acordado, ela jamais seria capaz de dizer-lhe adeus enquanto ele a ouvisse atento. Olhou para sua mala que parecia impaciente a esperá-la em sua despedida, depois olhou novamente para o homem, e beijando-lhe no rosto fez uma promessa bem perto de seu ouvido: “nunca mais sentirei ciúmes”. A moça estava profundamente triste porque estava se despedindo. Mentalmente ela se submetia a sensação de saber que aquela era a última vez que via a seu lado o seu grande amor, dormindo calmo e tranqüilo enquanto ela guerreava dentro de si porque ela o amava e ele não entendia o que significava esse amor. Então se levantou e saiu pela porta, trancou e jogou a chave pela janela. Tomou um ônibus e nunca mais viu seu homem.

4 comentários:

Natalie disse...

Que minha imaginação não seja confundida com meus reais sentimentos...

Fernanda Tatagiba disse...

Que texto maravilho!!!

Dessa vez você se superou. Espero que esta "imaginação" continue distante das vontades e quereres reais e findáveis. Que seja sempre assim, fruto das emoções dos infinitos mundos de um olhar, racionalizado na sensibilidade. Inventando esse momento descrito.

Tudo pode ir embora, mas o que ficou nesse instante para mim não parte nunca.

Anônimo disse...

A despedida é a ponta do iceberg.

Cami Silveira disse...

é interessante como a literatura feminina me toca... acho que há algo dentro de cada mulher que de alguma forma pertence a mim também... um sentimento, não sei se inato ou social... mas que nos entrelaça... esse conto para mim é prova disto.

Ficou muito bello!!!
acho que por causa do sentimento embutido em suas palavras do começo ao fim!