domingo, maio 13, 2007

Dia das Mães

Agora que estava deitada esperando que alguém lhe trouxesse algo para mastigar, pensava nas crianças brincando embaixo do pé de goiaba.

Já era tarde, quase escurecendo. Um sentimento profundo surgiu no momento que lembrou que era dia das mães. A tristeza era mais por ter passado o dia inteiro sem ter a menor ideia disso. Esquecera completamente. Não que isso tivesse algum dia importância, nunca suas crianças ligavam , nem mesmo ela se importava. A não ser quando a data precisou ser festejada. Isso deve ter acontecido uns dois anos antes dos meninos se misturarem com o mundo. Não percebeu ela o verdadeiro significado daqueles presentes caros comprados com o próprio dinheiro dos rebentos. Se limitou a ficar orgulhosa de sua criação ou a admirar os badulaques. Mas devem mesmo ter sido caros, pensava ela agora se sentido idiota por sua ingenuidade.

As viagens, as pressas do dia a dia, as conversas em que levava a serio os conselhos de seres tão pequenos. Tudo é tão importante quando isso não é percebido.

Guardava até poucos anos antes no canto da sala os brinquedos antigos. As vezes sem perceber arrumava-os quase como se quisesse brigar por tamanha arrumação.

Pensou que poderia chorar com essas lembranças, mas fora interrompida pela empregada com sua sopa rala e o pão duro. O jantar combinava com suas distrações de lembrar e extrair tristeza do melhor de sua vida. Sendo essa lucidez a mas cruel que restava.

Ser mãe era o melhor que tinha feito . Nem os amores perdidos, nem a profissão brilhante que se desfez em poucas tentativas. Qualquer coisa não fariam ela estar pensando a cada colher de sopa com o pão mordido. Poderia agora chorar. Mas ninguém veria. E ela sabia como era difícil de engolir quando chorava, e não poderia desperdiçar seu apetite fraco e a pouca chance dele coincidir com os horários das refeições.

Que felicidade poder lamentar pela falta de algo. A tristeza de não ter mais era a grandeza que precisava para terminar a comida com um quase sorriso que lhe fez dormir cheia. Preenchida de sopa e vida.

3 comentários:

Anônimo disse...

Que lágrima estranha esta que tenta me escapar agora... sabe o quanto isto é dificil?? Obrigado, e parabens. Vc, Natali e Tatá me fazem ter vontade de escrever. Longa vida a nossos projetos...

Anônimo disse...

Muito belo mesmo!

Viu?! Eu não te disse?! Contos são maravilhosos, extravam tanta coisa...

Foi é ótima, minha eterna "linda-fofa"!

Thalita Covre disse...

entào esse é o primeiro?
o grande filho....
vocÊ mandou bem Fernanda Tatagiba...
achei a construção de frases curtas muito eficaz. Na verdadae deixam transparecer sua identidade lirica.
parabéns fÊ!