Enquanto caminhava suspendeu a gola da camisa para que o frio não provocasse algum mal para a garganta. Ao suspender a gola lembrou-se de uma personagem que conhecera em um livro, e sentiu-se como ela. Sentiu um luxo radioso crescendo dentro de si. Seu cabelo era preto, tão preto quanto sua camisa. Ela sentiu-se muito bela, e decidida a usufruir de sua contemplação a si mesma, desistiu de seu caminho e foi para um bar, queria beber gim.
Não estava a procura de companhia, queria de verdade se ver ali, bela e sozinha, com sua dose diminuindo lentamente de seu copo até restar apenas gelo e limão. Contudo, como para encontrar alguém basta estar sozinha, um rapaz passou por sua mesa e ela não conteve e olhou para ele, estava decidida a não olhar para ninguém, a viver apenas sua vaidade naquele bar. Entretanto o rapaz que passou tinha cabelos bagunçados, barba por fazer e usava óculos. Ela olhou-o e ele estava esperando por este olhar para dizer alguma coisa. Trêmulo de ansiedade o rapaz conseguiu falar: “É gim, a muito tempo não tomo gim”. Ela levantou o copo num gesto glamuroso e bem sucedido oferecendo o drink. Ele sentou-se o começaram a conversar.
Enquanto ele falava Alice o observava. Sim, ele era perfeito, um rapaz não muito forte, não muito belo, não muito exaltado nem quieto demais. De voz grave e suave, vestindo uma camisa listrada e bebendo gim. Ela virava-se para ele transparecendo no olhar admiração e encanto.
Falaram pouco, sobre poucas coisas. Paravam de falar simultaneamente para ouvir a música que tocava, eles estavam em sintonia. Quando ela levantava seu copo para beber mais, ele também o fazia. Quando ela queria o silêncio para contemplar alguma cor, ele também silenciava.http://www.ncd.ufes.br/ncd/
A terceira dose acabou rápido e Alice estava disposta a beber um quarto drink. Disse ao rapaz que solicitasse outras duas doses enquanto ela usava o banheiro. Pediu licença, como moça educada que é, e saiu. Olhou-se no espelho e não acreditou, pensou que estava tudo perfeito: “Então existe mesmo o destino, o velho sábio com seu livro na mão sabia que eu estaria aqui hoje, sabia que ele foi feito para mim e o trouxe até este bar”. Alice estava encantada com o rapaz.
Quando voltou viu a mesa vazia com apenas um copo em cima. “Onde fora o moço de voz agradável?”. Sentou-se meio confusa, um pouco tonta. Perguntou ao garçom se não fora solicitado para sua mesa nenhuma outra dose e o garçom disse que não, ninguém pediu mais nada.
Alice esperou, talvez ele tivesse ido ao banheiro também, talvez tivesse que ir a outro bar comprar cigarros da sua marca favorita. Esperou. Quis beber o resto de gim do copo, mas já era apenas água de gelo derretido. Pensou em pedir outra dose, mas não, esperaria por ele.
A noite se prolongara e as pessoas começavam a ir embora. Poucos permaneciam. Olhou a sua volta a procura dele, mas não o viu, contudo percebeu que os garçons, já sem muitos a servir, cochichavam e olhavam em sua direção. Estavam falando dela? Só podia ser. Olhou para o outro lado irritada, “isso sempre acontece, estão sempre falando de mim”...
Cansada de esperar pediu ao mesmo garçom que a atendeu desde que sentou ali que lhe trouxesse a conta, que somasse as doses de gim que o rapaz também tomara, ela pagaria tudo. O garçom olhou para ela com ar de espanto e disse que ela só pedira uma dose, que não tinha mais nada para pagar. Alice não entendeu. Pensou que o rapaz que estava sentado ao seu lado pudesse ter pago a conta, talvez tivesse que sair rapidamente, então pagou a conta dos dois, “mas por que deixara uma dose para pagar?”. Chamou o garçom de novo, este já vinha com a conta na mão: “Alguém pagou o que bebi?” “Não dona, a senhora só bebeu uma dose de gim a noite inteira”.
Alice pagou e foi embora correndo e assustada.
Esta é uma pequena história de alguém que precisou criar uma mentira para amar. Alguém que o faz constantemente, que não respira o mero ar carregado de minério, mas que respira gotas de cristal que inventa em sua mente, a quem a vida agride mais, com seu itinerário exato e impossível. É uma pequena narrativa sobre aqueles que não nasceram para este mundo, mas que nasceram para viver o que eles mesmos idealizam. São pequenos seres fantásticos que caminham ao lado dos normais, às vezes nunca descobertos. Entretanto, às vezes esses humildes, mas imensos seres são desvendados e seus castelos destruídos por frustrados realistas. Talvez àqueles insensíveis demais consigam mal dizer pessoas como esta, mas quem descobre o que significa “viver” e compreende que depois desta descoberta você nada mais faz que sobreviver vai perdoá-los.
Nota: Eu não pretendia manifestar minhas inspirações, tive medo de ofender de alguma forma, mas mesmo sem dizer, ela percebeu e entendeu que eu a observo e percebo muito bem. Sim Thalita, é você!
Não estava a procura de companhia, queria de verdade se ver ali, bela e sozinha, com sua dose diminuindo lentamente de seu copo até restar apenas gelo e limão. Contudo, como para encontrar alguém basta estar sozinha, um rapaz passou por sua mesa e ela não conteve e olhou para ele, estava decidida a não olhar para ninguém, a viver apenas sua vaidade naquele bar. Entretanto o rapaz que passou tinha cabelos bagunçados, barba por fazer e usava óculos. Ela olhou-o e ele estava esperando por este olhar para dizer alguma coisa. Trêmulo de ansiedade o rapaz conseguiu falar: “É gim, a muito tempo não tomo gim”. Ela levantou o copo num gesto glamuroso e bem sucedido oferecendo o drink. Ele sentou-se o começaram a conversar.
Enquanto ele falava Alice o observava. Sim, ele era perfeito, um rapaz não muito forte, não muito belo, não muito exaltado nem quieto demais. De voz grave e suave, vestindo uma camisa listrada e bebendo gim. Ela virava-se para ele transparecendo no olhar admiração e encanto.
Falaram pouco, sobre poucas coisas. Paravam de falar simultaneamente para ouvir a música que tocava, eles estavam em sintonia. Quando ela levantava seu copo para beber mais, ele também o fazia. Quando ela queria o silêncio para contemplar alguma cor, ele também silenciava.http://www.ncd.ufes.br/ncd/
A terceira dose acabou rápido e Alice estava disposta a beber um quarto drink. Disse ao rapaz que solicitasse outras duas doses enquanto ela usava o banheiro. Pediu licença, como moça educada que é, e saiu. Olhou-se no espelho e não acreditou, pensou que estava tudo perfeito: “Então existe mesmo o destino, o velho sábio com seu livro na mão sabia que eu estaria aqui hoje, sabia que ele foi feito para mim e o trouxe até este bar”. Alice estava encantada com o rapaz.
Quando voltou viu a mesa vazia com apenas um copo em cima. “Onde fora o moço de voz agradável?”. Sentou-se meio confusa, um pouco tonta. Perguntou ao garçom se não fora solicitado para sua mesa nenhuma outra dose e o garçom disse que não, ninguém pediu mais nada.
Alice esperou, talvez ele tivesse ido ao banheiro também, talvez tivesse que ir a outro bar comprar cigarros da sua marca favorita. Esperou. Quis beber o resto de gim do copo, mas já era apenas água de gelo derretido. Pensou em pedir outra dose, mas não, esperaria por ele.
A noite se prolongara e as pessoas começavam a ir embora. Poucos permaneciam. Olhou a sua volta a procura dele, mas não o viu, contudo percebeu que os garçons, já sem muitos a servir, cochichavam e olhavam em sua direção. Estavam falando dela? Só podia ser. Olhou para o outro lado irritada, “isso sempre acontece, estão sempre falando de mim”...
Cansada de esperar pediu ao mesmo garçom que a atendeu desde que sentou ali que lhe trouxesse a conta, que somasse as doses de gim que o rapaz também tomara, ela pagaria tudo. O garçom olhou para ela com ar de espanto e disse que ela só pedira uma dose, que não tinha mais nada para pagar. Alice não entendeu. Pensou que o rapaz que estava sentado ao seu lado pudesse ter pago a conta, talvez tivesse que sair rapidamente, então pagou a conta dos dois, “mas por que deixara uma dose para pagar?”. Chamou o garçom de novo, este já vinha com a conta na mão: “Alguém pagou o que bebi?” “Não dona, a senhora só bebeu uma dose de gim a noite inteira”.
Alice pagou e foi embora correndo e assustada.
Esta é uma pequena história de alguém que precisou criar uma mentira para amar. Alguém que o faz constantemente, que não respira o mero ar carregado de minério, mas que respira gotas de cristal que inventa em sua mente, a quem a vida agride mais, com seu itinerário exato e impossível. É uma pequena narrativa sobre aqueles que não nasceram para este mundo, mas que nasceram para viver o que eles mesmos idealizam. São pequenos seres fantásticos que caminham ao lado dos normais, às vezes nunca descobertos. Entretanto, às vezes esses humildes, mas imensos seres são desvendados e seus castelos destruídos por frustrados realistas. Talvez àqueles insensíveis demais consigam mal dizer pessoas como esta, mas quem descobre o que significa “viver” e compreende que depois desta descoberta você nada mais faz que sobreviver vai perdoá-los.
Nota: Eu não pretendia manifestar minhas inspirações, tive medo de ofender de alguma forma, mas mesmo sem dizer, ela percebeu e entendeu que eu a observo e percebo muito bem. Sim Thalita, é você!
Um comentário:
Só vc tem o poder de acabar comigo!
Estou toda molhada de lágrimas...
inferno!
Sabe o que eu acho mais engraçado, essa sua narrativa (no caso, ficção) é tão real que machuca!
As nossas criações são band aids para a solidão. De nada serve a não ser alimentar o Kaonashi (do Filme viagem de chihiro), que vive nesse buraco negro isolante chamado mente de humanos -não- praticantes...
enfim, Natali, te marquei heim! Até a hora da saída!
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